27.6.13

Eixo Central: avenida nova, velhos erros

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No mês passado, foi inaugurada, em Lisboa, uma nova avenida denominada “Eixo Central da Alta de Lisboa” (na imagem do lado, um dos lados da avenida, durante a construção), que a Câmara Municipal de Lisboa comparou, em termos elogiosos, à avenida da Liberdade, nomeadamente pela sua largura e pelo seu largo (31 m) corredor central ajardinado com bancos para as pessoas “desfrutarem o charme parisiense importado para este projeto”.

Já ouvi uma ou outra referência muito elogiosa a esta nova avenida, como se se tratasse de um magnífico exemplo de desenho urbano.

A comparação com a avenida da Liberdade é, no mínimo, caricata: a avenida da Liberdade de hoje é um exemplo do que não se deve fazer. É uma avenida com faixas a mais para os carros, trânsito excessivo e que tem sido frequentemente referenciada como sendo “a avenida mais poluída da Europa”. Tem, é verdade, uma larga área verde entre faixas de rodagem, também com bancos para as pessoas “desfrutarem o charme parisiense”, mas o ruído do trânsito e o ar contaminado pela queima de combustível tornam-na um sítio onde não apetece ficar – e onde é recomendável não ficar, se se tiver amor à saúde. As várias faixas de rodagem convidam à velocidade e não é por acaso que existem por lá placas a informar que se trata de uma “zona de acidentes” (quem não se recorda de um grave acidente ocorrido há pouco tempo com um carro a circular a mais de 100 km/h?).

Foi mais ou menos este modelo que agora se quis importar para outra zona de Lisboa.

Com a conclusão da urbanização prevista para o local, a avenida vai ficar assim:
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As avenidas largas ao estilo de Haussmann estavam muito em voga no século XIX (é ao século XIX que remontam as origens da avenida da Liberdade e as largas avenidas parisienses que essa nossa avenida pretendeu copiar), num tempo em que não havia automóveis. Mas já não deviam ter lugar nas cidades do século XXI. A nova avenida lisboeta é ainda mais larga do que a avenida da Liberdade: percorrem-se 70 metros só para atravessar a rua. Hoje, as cidades querem-se mais compactas, evitando-se repetir os erros do passado, que muito têm custado às cidades, à vida nas cidades e ao dinheiro dos contribuintes (vai-se escrever muito neste blogue sobre o assunto).

E por falar em repetir os erros do passado, a avenida tem 6 faixas para o trânsito motorizado (em alguns locais, são 7, como se vê na imagem do projeto mostrada acima), para facilitar o trânsito autómóvel. Esta avenida é, citando as palavras do Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, mais uma “via estruturante” para a cidade de Lisboa e «[essencial] para a ligação de toda a zona da Charneca, da Ameixoeira e da Alta de Lisboa, mas também do concelho de Loures, ao centro da cidade» - o que, traduzido por miúdos, significa perpetuar o incentivo à utilização do carro numa cidade onde essa utilização é muito excessiva.   

Este é o prolongamento do chamado “eixo central de Lisboa” (daí o nome da avenida), composto também pela avenida da Liberdade, pela avenida Fontes Pereira de Melo, pela avenida da República (ao que consta, o segundo lugar mais poluído de Lisboa, junto a Entrecampos) e pelo Campo Grande: tudo “vias estruturantes” com muitas faixas de rodagem, onde são os carros que dominam. Avenidas que ferem a cidade por onde passam.

No desenho urbano da nova avenida foram esquecidas medidas de acalmia de tráfego, contra as boas práticas urbanísticas do século XXI. As faixas de rodagem da avenida são um convite aos aceleras que abundam por cá. Os atravessamentos pedonais são mais espaçados do que o recomendável, dificultando a vida aos peões, obrigados a fazer desvios para atravessar a rua.

Nada que possa causar grande admiração: o mesmo modelo ultrapassado foi usado recentemente, por exemplo, no planeamento da zona da Expo (também frequentemente elogiado), toda construída de raiz e onde abundam as avenidas largas “estruturantes” onde o carro passou a dominar.

Há que ser coerente: não se pode defender uma cidade com menos automóveis, uma cidade mais para as pessoas, e depois insistir-se neste tipo de planeamento urbano.
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