3.10.16

A presença de acompanhante nas cesarianas: ainda há incumprimento


Recapitulemos. Havia uma lei em vigor há 30 anos e que não era cumprida na maioria dos hospitais e maternidades públicos. Em Abril deste ano, na sequência de uma petição, foi publicado um despacho ministerial que dava três meses aos estabelecimentos para passarem a cumprir a obrigação de reconhecerem à parturiente o direito de ter um acompanhante durante o parto por cesariana (sobre o despacho, ver aqui). O prazo terminou em 14 de Julho, mas o incumprimento não terminou. Há hospitais que já cumprem, como o de Loures ou o de Almada. Mas na internet encontram-se relatos de estabelecimentos que continuam a desrespeitar aquele direito, como por exemplo o Hospital de Faro ou o Hospital do Barreiro.

Depois de um despacho para obrigar os estabelecimentos a cumprir uma lei com 30 anos de vida, o que será necessário agora? Um despacho para obrigar os estabelecimentos a cumprir o despacho anterior?

P.S. Entretanto, a Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto facultou uma minuta de declaração a entregar no estabelecimento previsto para o parto, para as mulheres que pretendam exercer o seu direito a serem acompanhadas no parto: ver aqui.

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27.9.16

A Mona Lisa e eu



Uma das atrações suplementares do Museu do Louvre é a corrida à Mona Lisa. De acordo com os números revelados num documentário recente do canal ARTE, cerca de metade dos dez milhões de visitantes/ano só entra no Louvre para ver a Mona Lisa. O Louvre tem uma coleção espantosa de obras de arte e de peças de arqueologia. Mas é vê-los a transpor os torniquetes da entrada, de máquina fotográfica em riste, a avançar em passo apressado, passando indiferentes ao lado de magníficas obras, atropelando outros visitantes, subindo impacientemente as escadas e dirigindo-se enfim à sala onde a Mona Lisa está exposta. Da última vez que visitei o Louvre, já havia, neste percurso desde a entrada do museu, setas a indicar o caminho para a Mona Lisa.

Na sala onde a Gioconda está exposta há outras obras-primas, desprezadas por grande parte dos visitantes, concentrando a sua atenção na Mona Lisa. Concentrando a sua atenção é uma força de expressão. O melhor da corrida à Mona Lisa é o final. Quando finalmente se encontram em frente ao famoso quadro, muitas destas pessoas nem uns segundos se dedicam a observá-lo. Mal chegam ao pé da obra, a prioridade absoluta é tirar uma fotografia. Ao quadro e a elas e ao quadro. Sobretudo a elas e ao quadro. De forma que viram as costas à Gioconda para a fotografia. Fotografia tirada, apreciam no ecrã o resultado entre comentários de satisfação. E já está.

Tirei esta fotografia - na qual contei 5 pessoas a olhar para o quadro - um ano antes de chegar a moda dos autorretratos a que agora dão o nome de “selfies”. E foi ao ver a impressionante fotografia tirada esta semana numa ação de campanha de Hillary Clinton (ver aqui) que me pus a imaginar a corrida à Mona Lisa na era pós-“selfies”. E imagino, estarrecido, os visitantes todos de costas para o quadro para tirar uma “selfie”. É difícil conceber imagem mais absurda num museu. Mas se pensarmos bem nada de substancial mudou. Agora o absurdo é apenas mais óbvio; se alguma vantagem trouxe a mania das “selfies”, foi essa.

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18.6.16

A (des)promoção I


Somos pais – pai, mãe – e deixámos de ter nome. Ainda me recordo daquela primeira vez em que ouvi
“Pai, importa-se de…?”
e de ter pensado
“Então mas a enfermeira trouxe para aqui o pai dela?!”
e de ouvir de novo a enfermeira, a insistir
“Pai, importa-se de…?”
e eu a olhar à minha volta para perceber onde estava o dito pai. Como não havia mais nenhum homem ali, percebi, surpreendido, que o “pai” era eu.

Habituar-me-ia rapidamente. O tratamento por “mãe” e “pai” é geral, em qualquer serviço destinado à criança (creches, maternidades, hospitais, centros de saúde, consultórios de pediatria, etc.).

E parece que fazem especial esforço por abusar do uso do “pai” e da “mãe”. Raramente um simples
“Importa-se de…?”
Quase sempre um
“Pai, importa-se de…?”.
“Obrigado, pai”.
 “Adeus, pai”.
(Às vezes sinto-me tentado a responder
“Adeus, minha filha”.) 

É como se ao ganharmos a condição de pai / mãe tivéssemos perdido todas as outras e a nossa existência tivesse passado a valer unicamente por sermos pais.

Nunca se saberá como é que isto começou. Mais impressionante é como é que se propagou ao ponto de se generalizar.
(Sem qualquer paralelo. Por exemplo, se levarmos a nossa mãe a uma consulta, ninguém nos diz
“Filho, importa-se de…?”
“É por ali, filho, primeira porta à direita”
"Adeus, filho".)

O mundo ao contrário. Ontem, quando, na creche dos meus bebés, uma auxiliar da sala deles, que sempre me tinha tratado por “pai”, disse
“Jorge, é preciso trazer mais fraldas”
foi instintivo: olhei à minha volta para ver quem é que era o fidalgo que tinha o privilégio de ser tratado pelo seu nome. Como não havia mais nenhum homem ali, percebi, surpreendido, que o "Jorge" era eu.
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17.6.16

Unidade de Neonatologia de Évora: prevaleceu o bom senso


Relativamente à proposta, em discussão pública, de encerramento da UCIN de Évora (ver aqui), prevaleceu o bom senso no Governo, que anunciou ontem que o encerramento não se vai concretizar.

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16.6.16

A Minha Rua: Câmara de Cascais vs. Câmara de Évora


Em 12 de Abril deste ano, apresentei uma reclamação à Câmara Municipal de Évora, através do Portal do Cidadão - A Minha Rua. Motivo da reclamação: um lancil de passeio muito alto num local de passagem de peões, que era um pesadelo para alguém transportando um carrinho de bebé, um obstáculo intransponível para uma cadeira de rodas e um perigo de queda para um idoso. Uma rampa resolveria o problema.

Nove dias depois, recebi uma resposta da Câmara Municipal de Évora e um mês e tal depois o problema já estava resolvido: a rampa tinha sido construída.
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A Câmara Municipal de Évora até fez mais, construindo outra rampa num outro passeio, a poucos metros, integrado no mesmo percurso pedonal.   

As últimas reclamações que apresentei à Câmara Municipal de Cascais datam de há cerca de meio ano. Como habitualmente, nenhum dos problemas denunciados foi resolvido. Nem uma simples resposta da autarquia tive até hoje.

São diferenças.
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