27.3.12

Os portugueses e o “TGV”

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«A linha para Madrid já se sabia que ia ser deficitária. E eu sempre me perguntei: como é que um país pobre, um país que tem grandes dificuldades financeiras, vai construir um serviço público que vai perder dinheiro e que não é necessário? Se fosse necessário, não perdia dinheiro» (Miguel Sousa Tavares, sobre o "TGV", no Jornal da Noite da SIC, em 26 de Março de 2012).
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Escolhi as palavras de Miguel Sousa Tavares, como poderia ter escolhido as de muitas outras figuras públicas. Infelizmente, disseminou-se esta ideia peregrina de que se um serviço público é deficitário (o que nem sequer era certo no caso do "TGV"), não é necessário (ou, caso já exista, deve ser suprimido).
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Claro que o desenvolvimento deste brilhante raciocínio implica que o Estado não deva investir em escolas, nem em hospitais, nem em cultura, nem em justiça, nem nas forças armadas, nem em estradas, etc., etc., etc., a menos que os respetivos “serviços” deem lucro.
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(estou, de resto, a aguardar pelo momento em que, em vez de pagar impostos, passarei a receber dividendos do Estado)
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Claro que ninguém defende isso: o mais curioso deste tipo de raciocínio é que ele costuma ser muito seletivo. A rodovia é um dos setores onde ele quase nunca é utilizado. E a ferrovia é um dos setores onde ele é frequentemente invocado. Sobretudo a de alta velocidade.
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Os portugueses, ao contrário dos restantes europeus, desprezam a ferrovia e veem o comboio como um meio de transporte do século XIX ou destinado aos pobres que não têm dinheiro para andar de carro ou de avião. Nós, os novos pobres da Europa, ainda continuamos com esta mentalidade de novos-ricos que adquirimos a partir de meados dos anos 80, por altura da nossa entrada na União Europeia, e que foi sendo alimentada por sucessivos governos que apostaram quase tudo nas deslocações por estrada e foram deixando no esquecimento a ferrovia nacional.
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(“nacional” é apenas uma força de expressão, tal o número de linhas férreas que têm vindo a ser encerradas no nosso país desde os governos de Cavaco Silva)
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Mesmo entre aqueles que manifestam alguma simpatia pela “causa” da ferrovia, muitos são os que nunca incluem o comboio nos seus planos de deslocação, optando sempre pelo carro. Os portugueses divorciaram-se do comboio. Não é surpresa que desprezem o comboio de alta velocidade.
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Claro que perante um projeto de construção de uma nova estrada, ninguém se lembra de dizer que é um disparate investir dinheiro «num serviço público que vai perder dinheiro e que não é necessário! Se fosse necessário, não perdia dinheiro» (com este argumento, aliás, todas as estradas do país seriam fechadas). Ainda hoje, Março de 2012, continua-se a gastar muito dinheiro a construir estradas, na sua maior parte dispensáveis, em montantes maiores - maiores não, descomunalmente maiores - do que aqueles que envolveria a linha de alta velocidade (cujo custo seria suportado, na sua esmagadora maioria, pela União Europeia). As estradas, no entanto, são bem recebidas pelos portugueses. Mas o “TGV” - transporte público - é um escândalo, uma "obra de um país novo-rico" (!), um país que não tem dinheiro para esses “luxos”.
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Não é novidade em Portugal. Foi muito semelhante a polémica no século XIX, quando o nosso país (então muitíssimo mais pobre do que hoje) resolveu investir na ferrovia, sob uma forte contestação social e política (mas com a grande diferença de que então o país não andava, como hoje, a desbaratar quantias astronómicas em estradas inúteis ou de utilidade muito duvidosa). Nessa altura, venceu o projeto de Fontes Pereira de Melo e a visão de futuro. Nessa altura, tal como hoje, a ferrovia era o futuro. Se tivesse vencido a mentalidade mesquinha de que o país não deve investir em serviços públicos deficitários (“logo, desnecessários”), hoje não existiria caminho-de-ferro em Portugal.
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Não vamos voltar a ter, nas próximas décadas, a oportunidade que agora foi desperdiçada.
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(pior: o Estado vai perder mais dinheiro do que aquele que gastaria com a infraestrutura cuja construção foi agora abandonada)
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A começar já aqui ao lado - em Espanha -, a ferrovia floresce em toda a Europa. Toda? Não. Há um pequeno país – que, curiosamente, depende do turismo, e em grande parte do turismo espanhol – onde se acha um escândalo apostar numa linha férrea para uma ligação rápida ao país vizinho. Um pequeno país que, em pleno século XXI, vai continuar a ter uma ligação ferroviária a Madrid que demora dez horas. Um país atrasado e que desistiu de apanhar o comboio do futuro.
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Comboio de alta velocidade espanhol. Da Galiza à Andaluzia, passando por Castela e pela Extremadura, estamos a ficar cercados por linhas de alta velocidade, mas sem nenhuma ligação à rede portuguesa. Os espanhóis renderam-se à alta velocidade, que tem sido um sucesso.PACE

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