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Em 2010, Pontevedra, cidade
galega com mais de 80 mil habitantes (seria, se fosse portuguesa, a nossa 10.ª
maior cidade), tornou-se a primeira cidade espanhola a generalizar a toda a urbe o limite máximo de velocidade de 30 km/h (a única exceção é o centro da
cidade, onde a velocidade máxima é de 20 km/h). Não há uma única rua ou avenida
da cidade onde seja permitido circular a uma velocidade superior a 30 km/h.
Seguindo as boas práticas, a
implementação desta medida foi acompanhada da introdução de medidas de acalmia
de tráfego, como por exemplo lombas ou plataformas elevadas; aumento do número
de passadeiras, sendo a maioria delas sobrelevadas ao nível do passeio; ou a diminuição
da largura da faixa de rodagem, em muitos casos acompanhada de uma elevação do
nível dos passeios, de modo a criar o chamado “efeito de túnel”, indutor da
sensação de estreitamento da via, desincentivador de velocidades elevadas; de
tal forma que, em muitas ruas da cidade, é o próprio desenho urbano que impõe
velocidades baixas de circulação (os automobilistas sentem que não podem andar
a velocidade superior).
Desde a introdução, em 2010, do
limite de velocidade de 30 km/h, não houve um único desastre mortal em toda a
cidade, e o número de desastres graves diminuiu drasticamente, para quase
desaparecer: apenas três feridos graves em quatro anos e meio (menos de um por ano). Pontevedra é
hoje a cidade mais segura de Espanha do ponto de vista da mobilidade. E está
entre as cinco cidades mais seguras do mundo, de acordo com um estudo datado de 2014.
Os efeitos da redução do limite
máximo de velocidade na sinistralidade não constituem, aliás, qualquer surpresa,
estando abundantemente estudados e comprovados (ver nota 1).
Mas não se restringiram à
sinistralidade os efeitos positivos dessa redução. Diminuiu também o ruído e a
poluição atmosférica:
- Diminuir a velocidade máxima
de circulação de 50 km/h para 30 km/h tem como efeito uma diminuição do ruído
de tráfego de cerca de 3dbA, o equivalente a uma perceção de redução do ruído
para metade.
- A redução da poluição do ar explica-se, nomeadamente, pela diminuição dos congestionamentos e o
aumento da fluidez de tráfego, em consequência da redução do chamado “efeito de
harmónio”, também amplamente estudado. Quando aumentam as diferenças da
velocidade de circulação dos veículos, são muito mais frequentes as travagens,
as acelerações e as paragens.
Esta medida surgiu no contexto
de uma transformação extraordinária da cidade de Pontevedra levada a cabo pela
respetiva autarquia desde 1999, com o objetivo de recuperar um espaço público que
estava dominado pelo automóvel, e em que não faltavam as avenidas transformadas
em pistas de carros e os espaços pedonais - que eram exíguos - invadidos pelo
estacionamento selvagem. Em menos de 15 anos, Pontevedra voltou a ser uma
cidade pensada em primeiro lugar para as pessoas, e não para os carros (ver nota 2), e é
hoje uma referência internacional, tendo já recebido vários prémios e
influenciado mudanças noutras cidades.
Medidas deste género contam
sempre com alguma resistência inicial (mesmo que, no caso, a redução do limite
para 30 km/h tenha sido aprovada sem qualquer voto contra; mesmo o PP, que se absteve, estava de acordo com a
medida), sendo essa resistência motivada essencialmente por desconhecimento dos seus efeitos
positivos. Mas depois de implementadas, a sua aceitação torna-se mais ou menos generalizada
em curto prazo, perante a evidência dos seus efeitos benéficos para a saúde, para a
segurança e para a qualidade de vida. Foi o que sucedeu em Pontevedra.
Presentemente, há um projeto
para estender o limite 30 a todas as cidades espanholas. Existe também uma
recomendação do Parlamento Europeu, aprovada em 27/9/2011, para que o limite de
velocidade não exceda os 30 km/h pelo menos nas zonas residenciais, em toda a
União Europeia.
Há, em Portugal, 150 cidades com
menor dimensão do que Pontevedra. Todas têm, como regra, o limite de velocidade
de 50 km/h.
Este texto poderia ser uma introdução
ao artigo que se segue.
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